Ao Mestre, com Carinho | Coluna: A Sétima Arte em Foco


"Vou fazer o quê, aprender boas maneiras com esses cretinos?
Com tanto que se aprenda não importa quem ensine”!
(sobre formalidades em tratamentos pessoais e sociais respondido por uma professora interpretada por Marianne Stone para o professor Theo Weston [Geoffrey Bayldon] quando este questionou um dos alunos de Poitier quando esse educadamente pediu a bola para o recreio)

 O Filme é uma boa referencia para se tratar de muitas questões sociais, principalmente das metodologias pedagógicas. As dificuldades vividas por um engenheiro da Guiana, negro que na capital londrina aceita o cargo provisório de professor substituto em uma escola. Mark Thackeray (Sidney Poitie) se vê diante de um grande desafio, o de lecionar para a turma mais rebelde e indisciplinada daquela escola londrina.
De cara Thackeray percebe que os jovens são carentes de instrução e sua rebeldia se dá mediante a carência de diversos problemas sociais, morais e psicológicos, cada jovem tinha seus problemas pessoais e familiares, por isso tentavam chamar atenção de maneira rebelde, e com isso fracassavam em seu rendimento escolar.
A metodologia do professor teve êxito. No primeiro momento ele teve que ter uma postura mais enérgica como quando entrou e a sala estava esfumaçada por conta dos absorventes que as meninas puseram para queimar no aquecedor da sala de aula, mas aos poucos, com muita franqueza e seriedade, ele foi conquistando a atenção da turma. Apresentou uma realidade desconhecida até então para aqueles futuros adultos, como deveriam se comportar, agir, se vestir e outros valores morais. E principalmente, ensinou-os a se valorizarem, confiarem em si e buscar suas metas.

Enfrentar as desigualdades raciais e étnicas, algo que até para um filme de 1967 nos causa uma baita saia justa ainda hoje, quando a mãe de um aluno negro Seales (Antony Villa Roy) morre e eles fazem uma “vaquinha” para arrecadar o suficiente para comprar uma coroa de flores em nome dos colegas de classe.  Ao perguntar do por que eles mandariam entregar as flores e não as entregariam pessoalmente, se surpreendeu com a resposta de Barbara Pegg (Lulu): "que não ficaria bem eles entrarem em uma residência de pessoas de cor". Mais uma lição a ser ensinada pelo professor negro aos seus alunos sobre as discriminações e suas fronteiras no campo social.

Mas a diante isso também foi quebrado no momento em que toda a classe reunida, foi prestar solidariedade no enterro da mãe de seu colega Seales. Uma atitude que surpreendeu o professor e demonstrou um grande avanço na maturidade daquela turma.

É perfeitamente compreensivo a pseudo atração da aluna mais bonita da classe do Sr. Thackeray,  Pamela Dare (Judy Geeson) por seu mestre. O complexo de Édipo é visível entre a aluna e o professor, os alunos não o conheciam e já não gostavam dele. Inconscientemente a relação inicial, onde o “superego” coloca os limites para o “Id” e o “Ego” tenta satisfazer os dois, ou seja, a figura de autoridade dos cuidadores são reeditadas no professor que sempre representava para eles a autoridade, é constatado na aluna Pamela. Ela deseja o professor, vê nele a figura do pai que tanto venera, ou seja, relação primária onde o pai é o herói. Ela não gosta da mãe porque essa representava autoridade.
Ele os ensina como sobreviver nos dias por vir, os ensina a cozinharem, apesar de eles terem sido hostis e levianos com ele, ainda assim, ele cumpre sua missão de prepará-los. É lógico que existem os mais resistentes a ele, como o rebelde Denham (Christian Roberts)
Não sei quantas e quantas vezes assisti a esse filme em minha vida, mas posso afirmar que não houve uma vez se quer, que eu não tenha me emocionado diante dele. Não sei qual associação meu subconsciente faz dentro dessa analogia do professor de Sidney Poitier e a mim como aluno reportado, mas me vejo um pouco em cada um daqueles alunos do filme e o carinho que guardo até hoje com saudade de cada um dos meus professores, das lições aprendidas e da imagem honrosa que tenho deles.
A dança final entre Thackeray e Pamela dá o tom da despedida numa espécie de formatura da ex-menina e debutante para uma vida de compromissos (confesso que nessa hora já estou muito emocionado mesmo).

Para que um professor possa atrair a atenção de sua classe, é necessário que haja uma interação maior entre ele e sua turma, onde o mestre possa desenvolver de forma racional, questões pertinentes ao habitual de cada um de seus alunos, tentando entender mais sobre o que pensam ou esperam de suas vidas. Escolas devem ser locais de experiências e resgates de valores perdidos na sociedade, como higiene, respeito e cidadania.


O compromisso de um professor precisa ir além do conceito de ensinar uma disciplina acadêmica. Muito mais auxiliar seus alunos e direcioná-los a serem futuros pensadores e fomentadores de opiniões, sem medo de paradigmas impostos por nossa sociedade, porém imparciais sempre quanto a partidos e religiões, deixando que esses se formem nisso por si só.



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Marcos Coimbra é o criador do Espaço HQ , e colabora aqui no Will,Who.
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