xXx: Reativado | Crítica


Por Diogo Simões

Para se entender os problemas que xXx: Reativado (filme com Vin Diesel que estreia nessa quinta nos cinemas) possui, é indispensável compreender um pouco da carreira de seu protagonista.

Ator carismático e de fala marcante, ficou conhecido para o público em geral quando emplacou participações importantes em filmes referenciais como Resgate do Soldado Ryan e o Gigante de Ferro. Em boa parte por conta também de sua presença “física” foi com naturalidade que vimos se encaminhar para os blockbusters de ação como um novo Stallone ou Schwarzenneger dessa geração e criando com isso uma base de fãs considerável. Seu blockbuster mais marcante nesse período foi o primeiro Velozes e Furiosos, sucesso absoluto de bilheteria que acabou por gerar mais uma parceria com o diretor Rob Cohen, o xXx original, que com custo de produção de apenas U$70 milhões rendeu mundialmente quase U$300 milhões, sucesso indiscutível.

Mas de todo esse sucesso comercial fez nascer em Vin Diesel a vontade de tentar se reinventar como ator, apostou em dramas, comédias, ficção-cientifica, trabalhou com o lendário diretor Sidney Lumet no pouco visto mas interessante Sob Suspeita, onde abandonou sua persona estabelecida para aparecer obeso, calvo e longe de ser o herói de ação de que estamos acostumados. Protagonizou e produziu a milionária continuação de seu projeto de estimação Pitch Black, atuou no que a princípio se imaginava como uma série rentável de filmes de ficção-científica, Missão Babilônia, até em comédias de família dos estúdios Disney atuou. Porém o que todos tiveram em comum em maior ou menor grau foi o fracasso nas bilheterias e nas críticas. Até que Vin Diesel parou de tentar.

Ao parar de se arriscar, resolveu abraçar a persona do exército de um homem só, do last action hero e daí ele voltou com tudo para sua galinha dos ovos de ouro, a franquia Velozes e Furiosos, que quase anualmente nos bombardeia com litros de gasolina, napalm, óleo de bronzear e testosterona, franquia que migrou de uma abordagem de anti-heróis que no processo de roubar cargas e carros, formavam laços se feriam e até mesmo podiam morrer,  para uma versão mais pobre dos Vingadores, salvando a si e a seus colegas em meio a total destruição e caos sem um arranhão sequer. Verdade seja dita a fórmula é um sucesso de bilhões de dólares que fizeram Vin Diesel voltar a ser sinônimo de cinemas lotados. Em uma Hollywood cada vez mais necessitada por remakes, reboots e sequências, produtores se perguntaram, porque não ressuscitar uma franquia que havia começado bem com Diesel e tido um interlúdio esquecível com Ice Cube? Parecia grana fácil demais para ficar só no campo das idéias. E não ficou.


E é o que temos hoje nos cinemas, uma tentativa desesperada de reprisar o que deu certo na retomada da franquia de Velozes e Furiosos. A breve trama de xXx: Reativado, nos reapresenta a Xander Cage reconvocado a contragosto (claro), para salvar o mundo mais uma vez de uma ameaça genérica e que para realizar tal performance (sim, performance, caso contrário porque rodopiar com uma moto no ar sem qualquer propósito, tornando-se nesse processo, mais lento na perseguição e mais fácil de ser alvejado?) o herói precisa reunir uma equipe especializada para auxiliá-lo: Uma sniper capaz de acertar qualquer alvo a qualquer distância (mesmo sem enxergá-lo); Um DJ, sim é isso mesmo que você leu, um DJ, cuja especialidade aparentemente se resume a invadir festas, embebedar mulheres e claro tocar músicas para distrair/atrapalhar os vilões; E um motorista de fuga, que poderia facilmente ser substituído por um desses bonecos de teste automotivos, verdade, ele se vangloria de seus desastres automobilísticos. Como podem ver se tratam de personagens unidimensionais que terminamos a projeção sem sequer lembrar de seus nomes e se importando menos ainda com seus destinos.

Não muito diferente do que acontece com o grupo de heróis, se reflete no grupo de antagonistas da produção (especialistas em artes marciais, brutamonte, femme fatale), suas personas praticamente se resumem a habilidades, apenas, mas que aparentemente possuem alguma -alguma- motivação real. Discutir o fiapo de trama que move xXx: Reativado é esbarrar em todos clichês e convenções do gênero, mas não de uma forma positiva, o filme diversas vezes zomba de si mesmo e abraça o farsesco, como se estivesse tentando aliviar a própria barra (deixa eu piscar o olho pra vocês da platéia!) para o que estamos assistindo, mas não adianta, tudo é muito ruim e muito artificial, desde a trilha sonora que nunca é usada em benefício da trama e mais como videoclipe (chamando a atenção para si mesma), até o uso desnecessário e equivocado do 3D, que se resume a atirar na cara da gente, terra, pedras, galhos, folhas e metal incandescente, perdendo oportunidades de usar essa tecnologia em cenas de ação que se beneficiariam, tais como as que se passam em espaços abertos (especialmente em duas situações, a do salto ao ar livre e a perseguição no mar).
DJ Caruso o diretor dessa sequência, comete erros básicos na montagem das cenas de ação, em algumas escancarando o recurso do CGI em outras não permitindo que entendamos onde cada personagem se encontra e como estão interagindo entre si, em outros momentos falha ao jamais explicar como motos anfíbias, para-quedas e outros gadgets providencialmente apareçam para impulsionar a adrenalina.

Já roteiro comete o erro mortal que é jamais nos fazer se preocupar por Xander, enquanto não ligamos se qualquer companheiro seu seja alvejado e morra (e os capangas que eles enfrentam possuem a mira pior do que a dos stormtroopers), Xander parece feito de aço, incapaz sequer de se arranhar, este elemento farsesco do longa transforma a natureza indestrutível e canastrona do personagem em um problema para a trama, já que mina o longa como exemplar de ação e o transforma em 1h47m do melhor que um evento de X-Games em um canal de esportes tem para oferecer.


Contando com um pretenso subtexto que chega a ser criminoso na forma indolente como trata o problema real que é a vigilância e a devassa da privacidade individual realizada pelas agências de segurança/espionagem americanas o filme ainda consegue a proeza de nos fazer torcer pelo fracasso do herói, já que ele trabalha para as agências em questão, sob um pretexto de vingança pessoal (Cheque suas fontes Xander!), só questionando suas ações quando confrontado e chamado a realidade por um dos vilões.

De toda essa confusão e reviravoltas mais do que previsíveis, nasce um arremedo de equipe que, Vin Diesel e os produtores dessa bomba, esperam que frutifiquem a exemplo de seu irmão mais velho, Velozes e Furiosos.  A nós como espectadores só resta esperar que não, afinal não precisamos de doses duplas de gasolina, napalm, óleo de bronzear e testosterona ao ano.

Nota: ☆☆☆☆

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