Silêncio | Crítica


Por Diogo Simões
Silêncio, filme dirigido por Martin Scorsese, é um longa que percorre grandes distâncias temáticas e narrativas refletindo sobre questões filosóficas quintessenciais e sobre o mistério da fé, então é com pesar que perto do final de suas 2 horas e 40 minutos ele deseje nos entregar algumas respostas que não necessitavam de respostas.
Fechando aquilo que podemos chamar de trilogia da fé (A Última Tentação de Cristo, Kundun e Silêncio), Scorsese apresenta um filme sobre fé, reflexão e resignação. Logo de início somos apresentados aos dois jovens Padres Jesuítas portugueses, Rodrigues e Garupe (Andrew Garfield e Adam Driver, respectivamente) que inconformados com os relatos recebidos de que seu estimado mentor Padre Ferreira (Liam Neeson) havia abdicado de sua fé no distante e hostil Japão, se voluntariam a cruzar o planeta para saber o que aconteceu verdadeiramente com seu mentor e desfazer o que acreditam ser uma calúnia absurda, já que a fé na disciplina e na intensidade da devoção de seu mestre a uma vida dedicada a Santa Igreja é absoluta da parte do jovens Jesuítas.
O confronto de civilizações que se sucederá dessa busca não poderia ser mais brutal, já que os dois se encontraram não apenas em território hostil, mas também em um país praticamente alienígena. O choque de chegar nas praias de um país tão diferente é bem abordado pelo roteiro por exemplo quando vemos as dificuldade dos Padres em lidar com um idioma que não conseguem entender, resultando em confissões ininteligíveis, comidas que mesmo a fome não consegue temperar e o medo onipresente de ser descoberto, já que dois europeus jamais conseguiriam se misturar aos demais habitantes sem chamar atenção.

Todos esses aspectos trabalham de forma coerente com os figurinos e locações, desde as  batinas em preto dos Padres até as roupas surradas e maltrapilhas dos camponeses em absoluto contraste com as roupas elegantes e desconfortavelmente belas da elite política japonesa. Tudo funciona para o realismo do que assistimos, realismo esse realçado pela belíssima escolha de locações que foge da tentação de mostrar a vida naqueles lugares como um refúgio idílico e sim como era na realidade, uma mistura de mato impenetrável, chuva onipresente, lama por todos os caminhos e um mar revolto de ondas perigosas, cenário esse ocasionalmente pontuado por habitações paupérrimas e decrépitas.
Em meio a esse cenário desesperador os Padres encontram um fervor religioso talvez maior do que estavam acostumados na Europa, mas acima de tudo encontram devotos mais interessados nos rituais litúrgicos e nas pequenas relíquias que os Jesuitas podem performar e carregar do que na filosofia e dogmas religiosos em si, resultando em uma cena incrível, em que Padre Rodrigues não consegue explicar a um casal que acabara de batizar o filho, que aquele ritual não garante automaticamente a criança um lugar no paraíso. E é tocante ver como na absoluta ausência de símbolos religiosos, os camponeses fabricam seus próprios totens religiosos nesse belo contraste entre a necessidade física e etérea da fé.
Mas toda habilidade técnica do longa perde força quando se trata das escolhas narrativas do diretor, a principal delas é a narração em off que por boa parte do filme fica ao encargo de seu protagonista (Garfield) que por vezes é expositiva demais, explicando o que o espectador naturalmente entenderia sem esse artifício, e se em determinado momento os clamores de Padre Ferreira são respondidos quebrando o Silêncio que é tão representativo em nossa relação com Deus, a catarse resultante é artificial/irreal. Isso sem citar a troca de narrador já no final da película por um personagem que não fomos apresentados e não fazemos ideia de quem seja.

O roteiro ainda se emenda e nos apresenta uma bela cena entre Garfield e Neeson, acerca de nossas naturezas e convicções não permanecerem imantadas no tempo, sobre elas serem fluidas e construídas a partir de nossas experiencias e circunstâncias, através de um monólogo sensível do resignado e experiente Padre Ferreira.
Mas é uma pena que o filme acredite precisar de um excesso de explicações que acabam por se contrapor à ideia original presente no título da obra, de que o silêncio por vezes pode preencher os espaços de uma sala com puro entendimento ou desacordo que esse mesmo silêncio pode nos afundar em desespero ou nos preencher de graça. Que por fim nossa existência é feita de perguntas e clamores sem respostas, provações e privações sem propósitos, sacrifícios e negações sem consequências, todos respondidos com absoluto silêncio.

Nota: ★★★

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