A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell | Crítica


Por Diogo Simões

Ghost in the Shell, que recebeu o subtítulo de 'A Vigilante do Amanhã' no Brasil, é um filme baseado no anime de 1995 que por sua vez foi baseado em um mangá, a história envolvendo a realização do anime é interessante para compreender sua versão live action que está nos cinemas.

O anime tinha a intenção, lá em 1995, de popularizar o gênero junto ao mercado ocidental, para isso contou com uma produção (grana) britânica, música composta para o filme pela então maior banda da época (U2) e um lançamento nos cinemas ocidentais em muito mais salas do que qualquer predecessor de seu gênero. Mas a estratégia falhou e apesar de hoje o filme ter se tornado cult e possuir uma bela base de adoradores, foi um fracasso de bilheteria.

O gênero cyberpunk normalmente não arrebata de imediato legiões de fãs e sucesso comercial, tende a ser um gênero que precisa de tempo para maturar, muitas de suas idéias tendem a se revelar previsões de nosso amanhã e seus desafios antecipações de problemas em um futuro onde a diferença homem e máquina irá diminuir ou até desaparecer. Enquanto muitas de suas proposições entram pela seara do metafísico, passando pela filosofia e se desenrolando em cenários geopolíticos e culturais complexos, normalmente em tramas que nos remetem ao Noir.

Vamos a trama, Major é uma investigadora de um grupo chamado Setor 9, que responde ao governo de uma futurista Tóquio, baseada estilisticamente em uma presente Hong Kong. Major é na verdade a “primeira de seu tipo”, um construto de partes robóticas em um cérebro humano que conforme sua investigação avança a respeito de assassinatos cometidos contra altos membros uma gigante corporação transnacional (que não por acaso é a empresa que criou seu corpo robótico) vai descobrindo mais e mais sobre seu passado. Em seu auxílio ela conta com parceiros com pouquíssimo tempo de tela para que possamos conhecê-los além de suas aparentes etnias (Russo, Chinês, Árabe e Japonês) e assim dar uma sensação de multiculturalidade ao mundo futurista sem perder tempo tendo que desenvolver isso (uma solução capenga).


A trama readapta pontos importantes do anime e contextualiza seu universo pessoal e político dentro desse gap de 22 anos do anime até o lançamento dessa versão, mas por incrível que pareça isso não fez bem ao longa, na verdade discussões a respeito da metafísica (o que nos torna humanos; singularidade) e geopolítica (conflitos internacionais; políticas agressivas anti-imigração) deixam de ser abordadas para se concentrar em sequências de ação (sem a visceralidade do original) e em discussões rasteiras sobre o que nos torna nós.

O aspecto que mais chama a atenção para o longa é a riqueza com que a Tóquio do futuro é construída, uma megalópole do futuro, super-populosa, suja, cinzenta e frequentemente chuvosa (ecos de Blade Runner) contraposta a opulência estrutural e tecnológica de seus arranha céus e onipresente propaganda em suas fachadas e skyline. Em Ghost in the Shell a paisagem é uma das protagonistas da trama, evocativa e em constante mudança a cidade pode muito bem também representar seus personagens, em constante estado de evolução e transformação. Ambos evoluindo e se transformando em algo novo, diferente.

Belamente fotografado o filme desaponta em suas cenas de ação, que sempre parecem estéreis, não existe impacto real quando se detonam explosivos e esvaziam cartuchos de balas, apenas motes para explorar suas consequências ou melhor dizendo, oportunidades para aperfeiçoamentos cibernéticos. E se considerarmos que o filme abandonou boa parte da discussão metafísica presente no orinal para abraçar o cinema de ação (necessidade de adaptação para o  público ocidental?) o longa perde muito de seu peso e futura atemporalidade.


Pouco se pode dizer a respeito das atuações do elenco, já que com exceção de Scarlet Johansson e de Michael Pitt, ambos razoáveis, os demais personagens são arremedos de personalidades genéricas, servindo mais como escadas e estereótipos que podemos automaticamente inferir suas ações sem necessariamente passar maior tempo com eles (chefe sisudo e confiável ou o empresário corrupto e inescrupuloso).

Os elementos de noir estão presentes, as ramificações cada vez mais profundas da trama, as traições, o cinismo. Mas falta peso, de alguma forma o conteúdo metafísico se perdeu na tradução, transformando o longa em apenas mais um exemplar de ação.
Não que o diretor Rupert Sanders deixe de inserir cenas clássicas do anime, em diversos momentos temos reproduções fiéis de momentos clássicos, mas estas servem mais como fanservice do que propriamente a trama.

Em resumo Ghost in the Shell caminha para a direção oposta de seus irmãos de gênero, quando colocado a prova do tempo sua relevância temática tende a apenas diminuir, jamais se estabelecendo como uma obra relevante dentro do rico cyberpunk.

Nota: ★★★☆☆

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