It - A Coisa | Crítica


Por Diogo Simões

Filmes de terror nunca são por natureza sobre o choque e o terror em si, quando bem realizados são relatos sobre angústias, neuroses, fixações e tabus, sejam eles pessoais; assuntos caros a seus realizadores; ou generalistas representando nossa sociedade como um todo. Aqui me corrijo, bons filmes de terror entendem essa dinâmica. E IT, que estreou nessa quinta-feira é um desses raros casos.
Baseado em um livro de Stephen King, que confesso não li, IT como todos irmãos de gênero entende que para uma história nos prender e chocar é necessário que seus elementos sejam familiares a plateia e o que poderia ser mais familiar do que nossa infância? Período seminal de nossas vidas, terreno fértil onde frutificará grande parte de nossos medos e neuroses.

Toda a trama gira em torno dessa época e de suas descobertas, cujo vilão serve como metáfora perfeita e bastante real para os medos de cada personagem se materializarem, temos um verdadeiro conto sobre a infância e a perda da inocência, que se passa em um universo quase que inteiramente infantil, onde os adultos quase sempre ausentes, quando presentes, são sempre fonte de rejeição, violência ou repressão.

A trama se passa na década de 80, em uma cidadezinha do Maine, onde um grupo de crianças são atormentadas por uma figura sinistra vestida de palhaço que parece ser propositalmente ignorada pelas autoridades locais e caberá a essas mesmas crianças vencer seus medos se quiserem derrotar um mal que desperta a cada 27 anos e já fez incontáveis vítimas.

Recriando a época em que se passa com incrível fidelidade, a cidadezinha parece realmente saída dos anos 80, todo design de produção com seus cenários e figurinos genuínos transformam aqueles cenários e pessoas em figuras reais, até mesmo a paleta de cores usada na película remete ao estilo da época dando essa sensação de nostalgia.

Com uma trama levemente inchada e alguns personagens a mais, a impressão que fica é que o filme poderia ser bem mais enxuto do que suas 2h15m, o Clube dos Perdedores, como nossos heróis se autodenominam poderia perder facilmente dois de seus integrantes sem prejuízo algum a narrativa, mas ainda assim a trama possuí mais acertos do que erros e mesmos os momentos mais prolixos do longa não deixam de entreter.

Exemplar do gênero em que seus melhores momentos de susto não depende exclusivamente da trilha sonora, It apresenta um trabalho de maquiagem e efeitos especiais habilidosos que contribuem para a veracidade do que vemos na tela, sendo raras às vezes em que somos atirados para fora daquele mundo dada a artificialidade do que estamos assistindo (sendo a boca repleta de dentes se abrindo de Pennywise, infelizmente, uma delas), o filme em si merece muitos pontos por seus elementos técnicos.

Mas o elemento mais corajoso do longa reside no fato de que ele não poupa o espectador da violência dirigida às crianças, vítimas exclusivas do vilão. Com uma sequência de abertura que escancara a natureza monstruosa do palhaço, estabelece o tom do restante da história reforçando que a ameaça é terrivelmente fatal.

Destaque para Bill Skarsgard em sua construção do palhaço assassino, com uma atuação que mistura elementos de psicopatia e uma animalidade crua, muitas vezes vemos o personagem salivando pela refeição por chegar como uma verdadeira fera, Skarsgard oscila quando necessário entre o desajeitado palhaço sedutor e a fera selvagem na noite escura.

As demais crianças criam personagens reais com suas delicadas e sensíveis composições com destaque para a sensível Bervely Marsh interpretada pela talentosa Sophia Lillis, naquele que é o arco mais rico e trágico de toda história, tendo o sangue que a persegue durante todo o filme (simples gotas ou inundações), como metáfora para sua nova condição de mulher (menstruação) e não mais criança, a colocando em risco praticamente com todos exemplares adultos do sexo masculino, inclusive seu pai.

It é em essência um filme sobre a infância e como ela reflete de muitas formas ao longo de toda a vida, não é sobre sustos fáceis ou escatologias, não é um tratado sobre nossa sociedade ou época, é um conto intimista sobre coragem e força, sobre enfrentar seus medos, sobre crianças entrando em túneis escuros e emergindo do outro lado como adultos.

Nota: 🌟🌟🌟🌟⭐

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