Dunkirk | Crítica


Por Diogo Simões

Dunkirk é um filme habilmente construído em cima de sons e imagens. Ao final de 1h e 46m, não se espante se você não souber o nome da maioria de seus personagens, o longa não se apresenta como um estudo dos mesmos. Toda a estratégia visual do cineasta é te colocar no centro da ação em companhia daqueles milhares de soldados em uma situação impossível e desesperadora a caminho de casa.

Christopher Nolan é um diretor que atua detrás das câmeras com uma precisão quase mecânica, seus longas são exemplares se analisados estritamente seus pontos técnicos, edição e  montagens precisas unindo diferentes linhas temporais e focos de ação, preferência a efeitos práticos ao quase onipresente CGI das películas atuais, além é claro de tramas sempre complexas e carregadas de simbolismos.
Muitos de seus detratores se concentram no didatismo do diretor e sua necessidade quase professoral de explicar para o espectador o que está acontecendo na tela enquanto outros focam na precisão mecânica de seus filmes que praticamente descarta elementos emocionais subjetivos e quando assim o faz (vide Interestelar) faz de maneira forçada (amor como bússola cósmica).

Em Dunkirk o diretor faz seu filme mais contido, onde vemos como de habitual suas virtudes como contador de história e pouco de seus vícios narrativos ou visuais, a câmera quase sempre no meio da ação, poderia te levar a pensar em tomadas tremidas, sem muita orientação espacial,  quando na realidade ela é usada perfeitamente para ilustrar a confusão dos personagens em meio a tiroteios e bombardeios, inúmeras vezes em ambientes claustrofóbicos. Os sons diegéticos elevados ao nível  quase ensurdecedor, simulam também para o espectador a desorientação que os personagens estão sujeitos.


A história incrivelmente real de como a Inglaterra milagrosamente evacuou 335000 soldados das areias de Dunkirk de volta para casa é muito mais complexa do que o filme tende a sugerir e envolveu um esforço conjunto de embarcações civis de diferentes nações. Ponto para o  filme ao não envernizar uma derrota colossal da Inglaterra naquele momento da guerra (alguns já davam como certa a invasão da Inglaterra), mas indicar ainda que timidamente uma ponta de esperança (viva para lutar um outro dia).

A estratégia narrativa envolve, como de costume nos filmes de Nolan, costurar diferentes focos de ação, apresentados simultaneamente. No caso de Dunkirk, a estratégia visa resolver um problema temporal claro, como montar sequências de ação que se passam dentro de diferentes vetores, seria algo tremendamente incoerente narrativa e visualmente mostrar a ação dentro de segmentos separados simplesmente porque para um soldado a pé seu tempo de ação, sujeição ao fogo inimigo é completamente diferente do de um piloto da RAF ou de um capitão de um barco civil.


Ao trabalhar com diferentes janelas temporais, Nolan optou por costurar a narrativa dentro dessa idéia de simultaneidade. E a estratégia funciona, o filme nunca perde ritmo ou deixa de causar tensão.
Ao utilizar atores desconhecidos (salvo Tom Hardy, Mark Rylance, Kenneth Branagh e Cillian Murphy) o diretor cria a tensão necessária a diversos núcleos de que a qualquer momento podemos testemunhar uma baixa. Destaque para Cillian Murphy que vive um sobrevivente de um navio torpedeado em choque e contrário a ideia de voltar ao centro da ação. Tom Hardy utiliza novamente de sua habilidade de passar emoção apenas com suas (poucas) palavras e expressões (vide o excelente Locke), enquanto Mark Rylance e Kenneth Branagh criam personagens imbuídos de forte fibra moral em suas missões.

Enxuto em seus 106 minutos de duração, Dunkirk nos mostra que uma guerra é, em última analise, a história de homens ordinários, empurrados para o meio de eventos extraordinários que como homens comuns que são, apenas anseiam por uma passagem segura de volta para casa.

Nota: 🌟🌟🌟🌟🌟


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